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Le fonctionnement
du cœur

La santé des artères et le bon fonctionnement du cœur, peuvent être altérés par de nombreux facteurs : mode de vie, âge, diabète, cholestérol, antécédents familiaux … Pour comprendre le fonctionnement du cœur et le protéger des maladies cardio-vasculaires, une petite leçon d’anatomie s’impose.

La cellule, unité de vie

A la base de la vie, il y a les cellules. Des milliards de cellules qui respirent, consomment et produisent des déchets. Ensemble, elles forment nos tissus et nos organes : cœur, poumons, reins, foie, cerveau, muscles, etc.  Et toutes ces "unités de vie", ont besoin de l'oxygène apporté par le sang pour vivre. Les muscles qui travaillent en sont de gros consommateurs.

Le cœur, un muscle (myocarde) composé de cellules spécifiques (les cardiomyocytes) consomme, à lui seul, 10 % de tout l'oxygène fourni à l'organisme et ne pèse qu'environ 300 grammes chez un adulte.

Les cellules du cœur présentent 2 particularités :

  • elles sont capables de se contracter comme toutes les cellules musculaires,

  • elles peuvent aussi conduire de l'électricité, ce qui déclenche la contraction.

Véritable moteur, le cœur apporte l'énergie à tout l'organisme

Situé au sein du thorax, entre les 2 poumons, le cœur est un muscle creux de la grosseur d’un poing.

Il est recouvert de 2 fines membranes protectrices :

  • l'épicarde, l’enveloppe externe,

  • l'endocarde, l’enveloppe interne.

Le cœur a la forme grossière d'une pyramide renversée à trois faces.

De sa base s'échappent 2 vaisseaux :

  • l'artère pulmonaire, qui relie le cœur aux poumons,

  • l'aorte, qui relie le cœur au reste du corps : organes nobles, viscères, muscles, tissus.

Chacun de nous peut sentir battre la pointe du cœur entre deux côtes, du côté gauche, vers la partie basse du thorax. Le cœur repose, par une face inférieure, sur le diaphragme qui le sépare des viscères de l'abdomen. Muscle dénommé strié par les histologistes, il possède la même structure que ceux des membres avec la même force de contraction.

2 cœurs, 4 chambres

Vu en coupe, le cœur se compose de 4 cavités, couplées deux par deux, qui forment le cœur droit et le cœur gauche, soit 2 pompes juxtaposées et synchronisées. Chacun des deux cœurs est constitué d'une petite cavité, l'oreillette, ayant un rôle de réception du sang. Au gré des pressions, elle se contracte pour se vider dans un espace plus volumineux : le ventricule, qui éjecte le sang dans une artère.

Schéma des valves du coeur

La circulation du sang

Elle se fait à sens unique grâce aux  4 valves cardiaques qui, s'ouvrent et se ferment alternativement comme des clapets :

  • 2 d'entre elles siègent entre les oreillettes et les ventricules (les valves mitrale et tricuspide).

  • Les 2 autres sont situées entre les ventricules et l'artère correspondante (la valve aortique et la valve pulmonaire).

Le cœur droit comprend l'oreillette droite, placée au dessus du ventricule droit. Entre les deux se trouve la valvule tricuspide (à trois feuillets). Le cœur droit assure la récupération du sang veineux, le sang bleu appauvri en oxygène et riche en oxyde de carbone, de retour des tissus et organes qu'il a nourris.

Cette récupération s'effectue grâce à 2 vaisseaux raccordés à l'oreillette :

  • la veine cave inférieure, venant de la partie du corps située au dessous du cœur,

  • la veine cave supérieure, venant de la partie du corps située au dessus.

De l'oreillette droite, le sang bleu passe dans le ventricule à travers la valvule tricuspide ouverte, avant d’être propulsé dans l'artère pulmonaire, via la valvule pulmonaire, en direction des poumons où il s'oxygène et élimine le gaz carbonique.

C'est dans la paroi de l'oreillette droite, qu'un amas de cellules nerveuses, appelé nœud sinusal, est à l'origine des impulsions électriques qui déclenchent à intervalles réguliers la contraction cardiaque.

Le cœur gauche est constitué par l'oreillette gauche qui surmonte le ventricule gauche. Entre les deux se situe la valvule mitrale (en forme de mitre d'évêque renversée). Le cœur gauche propulse le sang dans tout l'organisme grâce à l'aorte, artère maîtresse qui naît du ventricule gauche.

En amont, le sang rouge, revenu des poumons où il s'est oxygéné, se déverse dans l'oreillette gauche en empruntant les veines pulmonaires, avant de passer dans le ventricule gauche à travers la valvule mitrale ouverte. Il est finalement éjecté par le ventricule dans l'aorte, qu'il atteint après avoir franchi la valvule aortique.

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Obras Obrigatórias da UNAERP Prof.ª Sônia PROGRAMA DAS PROVAS

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1 Obras Obrigatórias da UNAERP Prof.ª Sônia PROGRAMA DAS PROVAS Português O candidato será avaliado pela competência em entender textos de naturezas diversas- inclusive o literário e em produzi-los de forma que demonstre sua capacidade de pensar e expressar-se por escrito sobre determinado tema. No que se refere aos conhecimentos linguísticos, espera-se que reconheça as múltiplas manifestações da linguagem e a diversidade da língua e que demonstre competência e habilidade nos conteúdos a seguir: Parte I - Língua Portuguesa 1- Distinção entre as modalidades e as variedades da língua 2- Sistema ortográfico vigente: 2.1- Ortografia; 2.2- Pontuação. 3- Morfossintaxe 3.1- Flexão nominal; 3.2- Flexão verbal; 3.3- Estrutura e formação de palavras; 3.4- Concordância nominal e verbal; 3.5- Regência nominal e verbal; 3.6- Colocação das palavras na frase; 3.7- Pronomes: emprego e funções; 4- Semântica e estilística: 4.1- Denotação e conotação; 4.2- Figuras de Linguagem. 5- Processos de Organização do texto; 5.1- Estratégia de articulação do texto; 5.2- Coordenação e Subordinação; 5.3- Coesão e coerência; 5.4- Intertextualidade; 5.5- Funções da Linguagem. Parte II Literaturas de Língua Portuguesa Espera-se que o candidato identifique e reconheça as principais características das obras literárias a seguir, bem como seja capaz de relacioná-las ao contexto de sua produção e à estética literária (realismo, modernismo, etc.) à qual cada uma se refere. 1- Til - José de Alencar; 2- Memórias de um sargento de milícias - Manuel Antônio de Almeida; 3- Memórias póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis; 4- O cortiço - Aluísio Azevedo; 5- Vidas secas - Graciliano Ramos; 6- Capitães de areia - Jorge Amado; 7- Sentimento do mundo - Carlos Drummond de Andrade; 8- Matéria de poesia - Manoel de Barros Parte III - Redação O candidato deverá demonstrar domínio dos recursos morfossintáticos e semânticos da língua. As produções textuais deverão estar adequadas ao tema proposto, ao gênero textual e ao uso da norma padrão. Serão considerados também os fatores de coesão (articulação dos elementos textuais) e de coerência (organização lógica e não contradição das ideias). 1- Matéria de poesia - Manoel de Barros "Na Natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma."

2 Antoine-Laurent de Lavoisier "Sabemos nós que poesia mexe com palavras e não com paisagens. Por isso não sou poeta pantaneiro, nem ecológico. Meu trabalho é verbal. Eu tenho o desejo, portanto, de mudar a feição da natureza, pelo encantamento verbal." Manoel de Barros Manoel Wenceslau Leite de Barros (Cuiabá, Brasil, 19 de Dezembro de 1916) é o que se poderia chamar de alma humana inevitável, clarividente no corpo fisicamente espiritual como se tudo tivesse visto antes de vir ao mundo. E que visão feliz é esta? O poeta do Pantanal escuda-se na simples dicotomia entre coisificação do homem e humanização da coisa, fixando no seu solo tais premissas, permitindo-se alterar a substância natural e a partir daí reconstruir, dar vida (no caso das coisas, muitas delas objectos próximos da inutilidade, ou desutilidade como ele próprio diria), retirar vida ou colocá-la lado a lado com as restantes coisas (no caso do homem). Por isso, está claro que é uma poesia directamente literal (do ponto de vista linguístico), sendo que porém a literalidade é uma literalidade diferida, resolvidos os pressupostos iniciais. Nos poemas há como que um reequilíbrio do mundo, do peso das coisas, da importância das pessoas umas face às outras; há uma comunicabilidade entre todos os elementos do mundo, a que não é alheio, talvez, o facto de Manoel de Barros ter nascido à beira do Rio Cuiabá, ter vivido em Campo Grande, onde foi fazendeiro e criador de gado. Esse contacto com a natureza fê-lo buscar incessantemente a génese, os pontos mínimos, os inícios de sociedade, os primeiros olhares em direcção à realidade, passando a ter, na sua poesia, o Pantanal como pano de fundo. Em Poemas Concebidos sem Pecado (livro ilustrado por Jorapimo) há uma busca pela essencialidade ( sob o canto do bate-num-quara nasceu Cebeludinho / bem diferente de Iracema / desandando pouquíssima poesia / e que desculpa a insuficiência do canto / mas explica a sua vida / que juro ser o essencial ), pela inocência de uma infância de traquinice, alegria e êxtase (são usuais as exclamações), e um certo deambulismo, contemplação e qualificação ( pela rua deserta atravessa um bêbado comprido / e oscilante / como bambu / assobiando ). Em Compêndio para Uso dos Pássaros (também o nome da Poesia Reunida do autor, em Portugal, editado pelas extintas Edições Quasi) há um aprimoramento da metáfora, que é aberta e narrativa, um esforço maior de retirar as coisas do contexto natural e introduzi-las num outro, bem mais visceral (ex: Jacaré comeu minha boca do lado de fora ; ainda estavam verdes as estrelas / quando eles vinham / com seus cantos rorejados de lábios. / Os passarinhos se molhavam de / vermelho na manhã / e subiam por detrás de casa para me / espiarem no vidro ). Na obra Gramática Expositiva do Chão, o autor adopta uma discursividade quase política tal a importância e o tratamento que dá às situações que retrata e poetifica. De modo a aumentar a intensidade do discurso, faz enumerações de objectos, alguns deles de uso pessoal, fazendo paralelismos entre realidades díspares, num discurso em que a harmonia final é eivada de compaixão, de esquecimentos parciais e de janelas abertas para um mundo retido no seu tempo e espaço. Manoel de Barros acredita na superfície das coisas simples, na sua razão autónoma, aprofundando-lhes a estética, desdobrando-lhes a alma. Uma das características da sua obra é precisamente, e quanto a mim, este jogar com o superficial, sendo profundo; este jogar com os desnivelamentos dos elementos, mantendo-se verdadeiro e natural. O autor enquadra-se naquilo que ele chama de «vanguarda primitiva», virtude e dom pela fascinação e obsessão pelo primitivo,

3 pelo elementar e selvagem. Mas há ainda um recriar deste natural. É um natural, eu diria, «infranatural», pois apropria-se dos elementos naturais e quase que lhes subverte a sua ordem mais irrepreensível. Por outro lado, esta busca pelo primitivo não quer dizer que ele sempre busque o puro, a purificação, o ausentar-se dos problemas mundanos. É sim, como se tem vindo a dizer, a criação de um novo mundo moldado por uma certa reprodução de um passado, uma busca por um certo alheamento, um olhar diferente, muitas vezes remetido para a infância, vislumbrando-se nas entrelinhas o enorme contraste com o mundo dos nossos dias, de que Manoel de Barros também faz parte. Assim, num dos poemas do livro Matéria de Poesia, ele faz o elogio à poesia, mas não, a meu ver, enquanto género literário. É mais do que isso. É a poesia enquanto vida, enquanto modo de vida ( todas as coisas cujos valores podem ser / disputados no cuspe à distância / servem para poesia ),enquanto (des)importância das coisas e busca pelo seu peso certo ( tudo aquilo que a nossa / civilização rejeita, pisa e mija em cima, serve para poesia ). Na obra vê-se um discurso dialogante. Os diálogos, principalmente na segunda parte do livro, dão-lhe vivacidade e dinamismo, a par com a pontuação expressiva (pontos de interrogação, exclamação e reticências). Dá-se no poeta como que uma reciclagem dos materiais poéticos. E isto também se explica com o facto de ele tudo tratar como Coisa, até aquilo que de mais humano há. Tudo é aproveitável, porque transformável, fundível (quase que a máxima de Lavoisier se aqui aplica). Há linguagens que se atravessam e deixam o seu uso normal em ordem a experimentarem um outro. Ainda no mesmo livro, ilustrando isso, diz o poeta: a cidade mancava de uma rua até certo ponto; depois os cupins a comiam. Este entrecruzar de linguagens, normalmente dentro do contraste interno da mesma dicotomia homem/coisa, sendo dinâmico, ora com imagens, ora com metáforas (por vezes próximas da alegoria), serve para encurtar as distâncias entre tudo, apresentando, em minha opinião, uma consciência de vida em sociedade, na coesão de um grupo. E que sentido tudo isto faz vivendo o autor num país que tem atravessado toda espécie de problemas, a que ninguém é (ou pode ser) alheio. Escrever é perpetuar um momento, verdadeiro ou não. Não escrever e sentir é respeitar a natureza (de passagem) do seu exército de músculos e civilizações de saudade. Diferente de gostar de escrever é apreciar sentir a língua invisível nas palavras quando surgem e se alojam num texto. Tudo isto se representaria num círculo que começaria em branco, apenas com o contorno a negro. O ponto central também estaria a negro e seria a fortaleza a que damos o nome de «sentir». Quando o acto começa, e as palavras surgem, o círculo começaria a colorir-se, de fora para dentro, com uma cor forte (podia ser vermelho). Com essa cor galopante dar-se-ia, ou não, a erosão da areia branca desse branco por colorir. A partir daí veríamos de que modo a fortaleza, o nosso ponto que indica o sentir, reagiria. Se se manteria inalterado esperando que o mar vermelho lhe tocasse, se sofreria com o efeito de arrastamento que o branco restante arrastado pela

4 cor sofreria, se procuraria um outro círculo. Se o objectivo do acto fosse verdadeiro, a naturalidade do vermelho chegaria ao ponto negro, cobrindo todo o branco, o branco que representa o vazio. O ponto negro manter-se-ia inalterado naquele momento, deixando-se banhar a penumbra do bem-estar. Dentro desta minha imagem teórica, a poesia de Manoel de Barros surge como esta penumbra do bem-estar: o ponto negro no meio do círculo, com vermelho à volta. Há no autor, em função desta naturalidade, um escrever não escrevendo. Barros não faz da realidade e da escrita (com ficção ou sem ficção) realidades estanques. Ambas fazem parte do viver. Poemas seleccionados de Manoel de Barros:.. INFANTIL. O menino ia no mato E a onça comeu ele. Depois o caminhão passou por dentro do corpo do menino E ele foi contar para a mãe. A mãe disse: Mas se a onça comeu você, como é que o caminhão passou por dentro do seu corpo? É que o caminhão só passou renteando meu corpo E eu desviei depressa. Olha, mãe, eu só queria inventar uma poesia. Eu não preciso de fazer razão. Manoel de Barros em Tratado geral das grandezas do ínfimo.. UM SONGO. Aquele homem falava com as árvores e com as águas ao jeito que namorasse. Todos os dias ele arrumava as tardes para os lírios dormirem. Usava um velho regador para molhar todas as manhãs os rios e as árvores da beira.

5 Dizia que era abençoado pelas rãs e pelos pássaros. A gente acreditava por alto. Assistira certa vez um caracol vegetar-se na pedra mas não levou susto. Porque estudara antes sobre os fósseis linguísticos e nesses estudos encontrou muitas vezes caracóis vegetados em pedras. Era muito encontrável isso naquele tempo. Até pedra criava rabo! A natureza era inocente. P.S: Escrever em Absurdez faz causa para poesia Eu falo e escrevo Absurdez. Me sinto emancipado. Manoel de Barros Inédito PARREEDE! Quando eu estudava no colégio, interno, Eu fazia pecado solitário. Um padre me pegou fazendo. - Corrumbá, no parrrede! Meu castigo era ficar em pé defronte a uma parede e decorar 50 linhas de um livro. O padre me deu pra decorar o Sermão da Sexagésima de Vieira. - Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu. O que eu lera por antes naquele colégio eram romances de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio. Ao ler e decorar 50 linhas da Sexagésima fiquei embevecido. E li o Sermão inteiro. Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário! E fiz de montão. - Corumbá, no parrrede! Era a glória. Eu ia fascinado pra parede. Desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato. Decorei e li o livro alcandorado. Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases. Gostar quase até do cheiro das letras. Fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário. Ficar no parrrede era uma glória. Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom. A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio das paredes. Manoel de Barros

6 em Memórias Inventadas, As infâncias de Manoel de Barros.. APRENDIMENTOS O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura é o caminho que o homem percorre para se conhecer. Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim falou que só sabia que não sabia de nada. Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas das árvores servem para nos ensinar a cair sem alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente aprender o idioma que as rãs falam com as águas e ia conversar com as rãs. E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver, no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar. Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens. Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite! Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles esse pessoal. Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova. Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam que o fascínio poético vem das raízes da fala. Sócrates falava que as expressões mais eróticas são donzelas. E que a Beleza se explica melhor por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca. Manoel de Barros em Memórias Inventadas, As infâncias de Manoel de Barros.. ÁRVORE Um passarinho pediu a meu irmão para ser a sua árvore. Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho. No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de sol, de céu, e de lua mais do que na escola. No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo mais do que os padres lhes ensinavam no internato.

7 Aprendeu com a natureza o perfume de Deus. Seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor o azul. E descobriu que uma casca vazia de cigarra esquecida no tronco das árvores só presta para poesia. No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores são vaidosas. Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se transformara, envaidecia-se quando era nomeada para o entardecer dos pássaros. E tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos brejos. Meu irmão agradeceu a Deus aquela permanência em árvore porque fez amizade com muitas borboletas. Manoel de Barros em Ensaios Fotográficos RETRATO QUASE APAGADO EM QUE SE PODE VER PERFEITAMENTE NADA 1. Gravata de urubu não tem cor. Fincando na sombra um prego ermo, ele nasce. Luar em cima de casa exorta cachorro. Em perna de mosca salobra as águas se cristalizam. Besouros não ocupam asas para andar sobre fezes. Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina. No osso da fala dos loucos têm lírios. 3. Tem 4 teorias de árvore que eu conheço. Primeira: que arbusto de monturo agüenta mais formiga. Segunda: que uma planta de borra produz frutos ardentes. Terceira: nas plantas que vingam por rachaduras lavra um poder mais lúbrico de antros. Quarta: que há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes. 7. Uma chuva é íntima Se o homem a vê de uma parede umedecida de moscas; Se aparecem besouros nas folhagens; Se as lagartixas se fixam nos espelhos; Se as cigarras se perdem de amor pelas árvores; E o escuro se umedeça em nosso corpo. 9.

8 Em passar sua vagínula sobre as pobres coisas do chão, a lesma deixa risquinhos líquidos... A lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre as palavras Neste coito com letras! Na áspera secura de uma pedra a lesma esfrega-se Na avidez de deserto que é a vida de uma pedra a lesma escorre... Ela fode a pedra. Ela precisa desse deserto para viver. 11. Que a palavra parede não seja símbolo de obstáculos à liberdade nem de desejos reprimidos nem de proibições na infância, etc. (essas coisas que acham os reveladores de arcanos mentais) Não. Parede que me seduz é de tijolo, adobe preposto ao abdomen de uma casa. Eu tenho um gosto rasteiro de ir por reentrâncias baixar em rachaduras de paredes por frinchas, por gretas - com lascívia de hera. Sobre o tijolo ser um lábio cego. Tal um verme que iluminasse. 12. Seu França não presta pra nada - Só pra tocar violão. De beber água no chapéu as formigas já sabem quem ele é. Não presta pra nada. Mesmo que dizer: - Povo que gosta de resto de sopa é mosca. Disse que precisa de não ser ninguém toda vida. De ser o nada desenvolvido. E disse que o artista tem origem nesse ato suicida. 13. Lugar em que há decadência. Em que as casas começam a morrer e são habitadas por morcegos. Em que os capins lhes entram, aos homens, casas portas

9 a dentro. Em que os capins lhes subam pernas acima, seres a dentro. Luares encontrarão só pedras mendigos cachorros. Terrenos sitiados pelo abandono, apropriados à indigência. Onde os homens terão a força da indigência. E as ruínas darão frutos Manoel de Barros em O Guardador de Águas.. Obra inclui: 1937 Poemas concebidos sem pecado 1942 Face imóvel 1956 Poesias 1960 Compêndio para uso dos pássaros 1966 Gramática expositiva do chão 1974 Matéria de poesia 1980 Arranjos para assobio 1985 Livro de pré-coisas 1989 O guardador das águas 1990 Gramática expositiva do chão: Poesia quase toda 1993 Concerto a céu aberto para solos de aves 1993 O livro das ignorãças 1996 Livro sobre nada 1996 Das Buch der Unwissenheiten - Edição da revista alemã Akzente 1998 Retrato do artista quando coisa 2000 Ensaios fotográficos 2000 Exercícios de ser criança 2000 Encantador de palavras - Edição portuguesa 2001 O fazedor de amanhecer 2001 Tratado geral das grandezas do ínfimo 2001 Águas 2003 Para encontrar o azul eu uso pássaros 2003 Cantigas para um passarinho à toa 2003 Les paroles sans limite - Edição francesa 2003 Todo lo que no invento es falso - Antologia na Espanha 2004 Poemas Rupestres 2005 Riba del dessemblat. Antologia poètica Edição catalã (2005, Lleonard Muntaner, Editor) 2005 Memórias inventadas I 2006 Memórias inventadas II 2007 Memórias inventadas III

10 2010 Menino do Mato 2010 Poesias Completas 2-Til de José de Alencar. Quem foi Alencar? José de Alencar foi antes de tudo um inovador, o primeiro que, destemidamente, mostrou-se rebelde à tradição portuguesa. Sem dúvida um precursor da revolução modernista de Uma das marcas registradas de sua obra é o sentimento brasileiro. O índio que ele tanto cantou e exaltou, é a personificação de seu entranhado nacionalismo. Tanto que Machado de Assis declara que "nenhum escritor teve em mais alto grau a alma brasileira". O seu estilo revela-se retórico, sonoro e brilhante, o que nada mais é do que o espírito de sua escola - o Romantismo. As suas paisagens, além do sentimento brasileiro, têm cores maravilhosas da nossa exuberante vegetação tropicas. Ele não descreve cenas, quadros: pinta-os molhando o pincel nas mais vivas e variadas tintas. Conhecia o Português e conhecia a Gramática, mas sua preocupação estava acima disto: quis criar um estilo brasileiro, independente, pessoal, reflexo dos nossos modismos sintáticos e vocabulares, um linguajar brasileiro. Isso ele conseguiu; se não para os seus contemporâneos, mas para os pósteros que cada vez mais reconhecem sua originalidade e modernidade. A obra romanesca de Alencar costuma ser dividida pela crítica em quatro áreas: a indianista, a histórica, a urbana e regionalista. a) os romances indianistas apresentam três fases do índio: civilizado e dominado pelos portugueses na luta pela conquista da terra - O Guarani; os primeiros contatos dos brancos com os nativos na civilização do Ceará - Iracema; e o índio em seu estado natural, sem interferência do branco, longe da civilização, em época indeterminada - Ubirajara. b) Os romances históricos evocam nosso passado com As minas de prata, o primeiro romance histórico de nossa literatura; A guerra dos mascates, narrativa da famosa revolução de 1710, em Pernambuco, e, ainda através das crônicas dos tempos coloniais e das novelas O garatuja e Alfarrábios. c) Os romances regionalistas focalizam as paisagens e tipos humanos do norte e do sul do país, através de O sertanejo e O gaúcho, reproduzindo costumes típicos e folclóricos dessas regiões. O tronco do ipê e Til, considerados romances sociais, patenteiam também a corrente regionalista de Alencar. Com Til, retrata os costumes dos ambientes paulistas nas grandes épocas do café. Com O tronco do ipê, apresenta o panorama das fazendas do Rio de Janeiro. d) Os romances urbanos caracterizam a corte e o meio social carioca do Segundo Reinado. São romances de amor, que espelham a mentalidade romântica da época, capaz dos maiores sacrifícios para solidificar esse sentimento. Neles, o autor cria diversos perfis de mulheres, vivendo no trato íntimo da sociedade, mas sem grande penetração psicológica. Exemplificam esse gênero: Cinco minutos, A viuvinha, A pata da gazela, Sonhos d'ouro, Lucíola, Diva, Senhora e Encarnação. Além de romancista, Alencar foi teatrólogo, merecendo destaque as comédias: Verso e Reverso, O demônio familiar, As asas de um anjo, Noite de João além dos dramas Mãe e O jesuíta. Como poeta, deixa-nos o poema indianista Os filhos de Tupã. TIL - José de Alencar Retrata os costumes, a linguagem e a vida rural da época, e segue os moldes românticos, abordando a inocência, o amor, a fragilidade, a idealização da natureza e a subjetividade. Escrita em 1872 por José de Alencar, Til pertence à fase regionalista do autor. Na obra, são retratados os costumes, a linguagem e a vida rural da época abordando a inocência, o amor, a fragilidade, a idealização da natureza e a subjetividade. O enredo de Til Em um passeio pela fazenda, Berta - jovem pequena, esbelta - e Miguel - alto, ágil e robusto - encontram Jão Fera, com fama de bandido. Após um desentendimento entre eles, Jão vai embora a pedido da menina. Os dois amigos vão ao encontro de Linda e Afonso, irmãos gêmeos e filhos de Luís Galvão, homem inteligente, e de Ermelinda. Linda ama Miguel, mas Berta e Miguel já se amam. Contudo, para não ver o sofrimento da amiga, Berta faz de tudo para que Miguel fique com Linda. Todos gostavam muito de Berta - apelidada de Til -, pois era alegre e de bom coração. Num outro trecho da obra, ela visita constantemente Zana, uma mulher com problemas mentais. Brás, menino de 15 anos, também com problemas mentais tentar matar Zana por sentir ciúme de Berta, mas não consegue.

11 A história é marcada por tentativas de assassinatos. Pelo assassinato de Aguiar, seu filho oferecera uma recompensa a quem matar o assassino Jão Fera. Já o personagem Barroso e seu bando planejam provocar um incêndio na casa de Luis Galvão para matá-lo e, depois, apagando o incêndio Barroso pretende oferecer seus serviços à viúva e conquistá-la, vingando assim a traição do passado, pois ficaria com a esposa daquele que manchara a honra de sua esposa Besita. Ribeiro que trocara seu nome para Barroso tinha agora uma irrupção no rosto, Jão e Ribeiro tinham-se visto poucas vezes na época de Besita, por isso não se reconheceram quando se encontraram. À noite João, Gonçalo, o pajem Faustino e Monjolo, trancam a senzala e ateiam fogo no canavial, Luis tenta apagar o fogo e é agredido pelas costas por Gonçalo, mas Jão o salva, e mata os três bandidos. Barroso foge e, conforme o combinado, Jão se entrega ao filho de Aguiar, diz que irá pra onde ele quiser desde que ninguém toque nele, pois se isso acontecer este desfeito o acordo e ele estará livre novamente. Os capangas tentam amarrá-lo, ele espanca todos e vai embora. Barroso que ficara sabendo dessa prisão volta para tentar matar Berta, Jão que estava solto novamente consegue pegá-lo e o mata de forma violenta. Brás que presenciara tudo leva Berta pra ver a cena, mas ela foge horrorizada, enquanto Jão se entrega a policia. Luís resolve contar tudo a esposa, ela chora e decide que ele deve reconhecer Berta como filha. Eles contam tudo a Berta, omitindo, porém as circunstâncias desagradáveis, Berta sente que estão escondendo algo. Jão foge da prisão e procura Berta, ela o faz prometer que nunca mais matará ninguém. Ele fala de Besita sua mãe e ela lhe implora que conte tudo. Ele assim o faz, revelando que Besita casou-se com Ribeiro que desapareceu logo depois do casamento. Alguns meses depois, Besita é avisada por Zana que seu marido chegara. Como era noite, no escuro ela se entrega às caricias do marido, e depois descobre que não era ele e, sim, Luís Galvão. Jão pensa em matá-lo por isso, mas ela o impede. Meses depois Luís casa-se com D. Ermelinda e nasce Berta, filha de Besita. Um dia Besita pede a Jão que vá comprar coisas para o bebê. Durante sua ausência, aparece Ribeiro, que a acusa de traição e a estrangula. Neste momento, Jão chega e consegue salvar Berta, mas Ribeiro foge. Luís quer que Berta vá morar com ele e sua família em São Paulo, mas ela se nega e pede que leve Miguel que ama Linda. Miguel tenta convencê-la a ir junto, mas ela recusa, ficando no interior. Os personagens de Til A principal personagem da obra é Berta, que recebeu o apelido de Til, pois quando aprendeu a ler achava o acento til gracioso. Miguel é um rapaz robusto e apaixonado por Berta. Jão Fera tem fama de bandido, mas é o personagem que salva Berta e Luis Galvão, dono da fazenda em que a história é ambientada. Síntese de Viagens Til Til é uma narrativa que envolve os personagens Berta, Miguel, Linda e Afonso. Eles são adolescentes despreocupados. Regionalista, a obra supervaloriza o interior do Brasil e da vida bucólica. Til é o apelido de Berta, a heroína capaz de imensos sacrifícios por um ideal. Desenvolvimento da obra Til A história se desenvolve na fazenda no interior de São Paulo em meio a uma história de amor e descobertas sobre o passado de Berta. Problemática da obra Til- A filha de Besita é fruto de uma noite de amor com Luís Galvão, imaginando que ele é seu marido que voltara de viagem. Clímax da obra Til- Quando Jão Fera revela o segredo sobre a mãe de Berta. Desfecho da obra Til- Luís e a família se mudam para São Paulo, enquanto Berta fica no interior do estado. A linguagem de Til- Regionalista. O espaço/tempo em Til- A história se passa no interior paulista, em uma fazenda do século XIX. Narrador e foco narrativo de Til- Obra narrada em terceira pessoa. Narrador Onisciente. Contexto histórico de Til- No ano de publicação da obra, o Brasil estava às voltas com a aprovação da Lei do Ventre Livre, que garantia a liberdade a filhos de escravos nascidos no Brasil. Sobre o autor de Til- José de Alencar nasceu em 1 de maio de 1829, em Mecejana, no Ceará, e faleceu dia 12 de dezembro de 1877, no Rio de Janeiro. Formou-se advogado escreveu para jornais da época. Foi eleito deputado federal pelo Ceará e Ministro da Justiça. Alencar escreveu romances indianistas, urbanos, regionais, históricos, obras teatrais, poesias, crônicas, romances-poemas de natureza lendária e escritos políticos. Sua principal obra é Iracema. 1) -Ação- Til, de José de Alencar, é uma obra caracterizada como romance- novela; possui uma dramaticidade dinâmica. Sua temática é baseada na época do Brasil Colonial. Embora não tendo, uma sequência cronológica dos fatos, o romance possui coerência e coesão que torna o drama compreensível, porém exigindo do leitor muita atenção para não se perder no decorrer da narração que torna o romance muito movimentado e em um pequeno espaço de tempo cria inúmeros acontecimentos envolvendo muitos personagens. Há uma pequena intertextualidade com as tragédias gregas ao narrar a Ave-Maria,muitas mortes e muitos órfãos interligando assim vários núcleos existentes no enredo: A família de Guedes, a família de D.Tudinha, Luiz Galvão, o Tinguá e ainda os capangas : Jão Fera e Gonçalo Pinta.

12 2) Espaço- Tudo acontece em um lugar chamado Santa Bárbara, próximo a Campinas no estado de São Paulo, mas o romance faz referência também à cidade de Itu; à Vila de Piracicaba e à fazenda do Limoeiro. A floresta, assim como o bar à beira da estrada, o Bacorinho e o lugar chamado Ave-Maria são recursos particulares dentro do romance. Os sentimentos que o romance causa no leitor são: Piedade, indignação e choro e algumas vezes satisfação quando há uma vingança. O autor se mostra um artista da palavra quando através dela utiliza de vários adjetivos para reforçar característica das personagens e lugares fazendo o leitor viajar em imaginação na história, e também quando toca o emocional do leitor. 3)-Tempo- O narrador utiliza disfarces físicos e mudança de nomes em seus personagens. De acordo com a chegada de cada personagem na trama, o tempo é manejado pelo narrador que torna o tempo passado sempre presente. Portanto o tempo predominante é o psicológico. 4) -Personagens- Personagens planas- Não tem iniciativa, não tem ação significativa no romance. (Linda, Miguel, D. Ermelinda, Besita e D. Tudinha). Personagens redondas- Tudo gira em torno da personagem principal (Berta). Jão Fera- Ação de heroísmo. 5) Trama- O romance é a história de Berta, uma menina que fica órfã ainda bebê; sua mãe é assassinada pelo próprio marido, por ciúme ao saber que não era pai da criança. A menina cresceu inocente de sua própria história e era uma pessoa muito amável, justa e bondosa. Vivia com D.Tudinha, uma senhora que a adotou e a amamentou junto com seu filho Miguel. Berta era muito amiga de Afonso e Linda, ambos, filhos de Luiz Galvão: grande fazendeiro, e D. Ermelinda. Jão Fera é um personagem muito importante na trama, pois ele no início é um bandido, assassino e cruel. No decorrer da novela, ele vai se revelando como um herói. Ele é um guardião para Berta, pois desde quando ficou órfã, ele a defendera e continuava sempre por perto. Berta era muito amada por Miguel e Afonso; mas não se decidia por nenhum, pois Linda era apaixonada por Miguel e sua grande amiga. Berta chega a convencer Miguel a namorar Linda, embora sinta ciúme. Til, é um apelido que a própria Berta se dá para facilitar o aprendizado de Brás, pois era o símbolo que ele mais gostava no alfabeto. Por ser deficiente, Brás não conseguia aprender com clareza e por isso apanhava de palmatória nas aulas, e só Berta conseguiu ensiná-lo. Portanto eis o nome da obra. O romance não se enquadra na característica linear ou progressivo e sim como vertical ou analítico, pois dá maior ênfase aos personagens e no drama que eles vivem. Exemplo: Berta é tão marcada por sua história quando a descobre, que decide não aceitar a paternidade de Luiz Galvão e sua riqueza e fica com D.Tudinha, cuidando dos excluídos a sua volta. 6) -Verossimilhança- A ação dos personagens tem grande importância dentro do romance, pois são eles e principalmente Jão Fera, que faz a novela acontecer, ele possui um heroísmo fantástico, exemplo: Consegue vencer uma manada de Caitetus com Berta sobre os ombros e ainda salva o Pai-Quicé; se entrega à prisão e consegue sair livre. Por se tratar de fazendeiros, capangas, escravos, lavouras de cana e café, a trama tem uma semelhança com a verdade, pois isso faz parte da história do Brasil. 7) -Ponto de Vista- A narração do romance é feita em terceira pessoa. O narrador é onisciente; ele conhece, sabe todos os pensamentos e planos dos personagens e os revela ao leitor. Não é um personagem e nem um simples espectador. 8) Tipo de romance- Romance aberto- A trama apresenta características de um romance aberto, Pois o narrador traz ao longo da história, personagens próximos da realidade, por exemplo: Pessoas bondosas como Berta, D.Tudinha, e maldosas como Ribeiro e Gonçalo Pinta, que retratam sentimentos e ações comuns de pessoas reais. O narrador faz com que o leitor tenha profundas reflexões sobre o preconceito, a exclusão, a injustiça, e permite ao leitor participar da trama, pois faz o leitor pensar, refletir pressupor o que irá acontecer em alguns capítulos, ao mesmo tempo cria armadilhas durante seu percurso que pode confundir o leitor se não estiver atento. O leitor pode ainda continuar imaginando uma sequência mesmo após o final do romance. O Romance não é monofônico e também não é polifônico, pois não apresenta características. Essa oposição, a monofonia e a polifonia são observadas por M. Bakhtin como aquelas que se diferenciam no discurso como verdades fechadas e abertas. O discurso monofônico é próprio do discurso autoritário, que não permite o diálogo ou a relação entre o eu e o outro. Em contrapartida, na polifonia, própria da linguagem poética, a verdade surge como possibilidade discursiva em diálogo com a multiplicidade de vozes textuais. 9-)Resumo de Til- José de Alencar

13 Em um passeio pela fazenda, Berta, jovem pequena, esbelta, ligeira, buliçosa, grandes olhos, negros, boca mimosa. E Miguel que era, alto, ágil, de talhe robusto e bem conformado, encontram Jão Fera, homem de grande estatura e vigorosa compleição, que tinha fama de bandido. Após um desentendimento entre Jão Fera e Miguel ele vai embora a pedido de Berta. Os dois amigos vão ao encontro de Linda e Afonso, irmãos gêmeos de cabelos castanhos e olhos pardos, filhos de Luís Galvão que era um bonito homem, de fisionomia inteligente e regular estatura, e de D. Ermelinda de 38 anos. Linda ama Miguel. Berta e Miguel se amam. Mas pra não fazer sofrer a amiga Linda, Berta faz de tudo para que Miguel ame Linda. E consegue. Ficam sabendo que Luís Galvão vai fazer uma viagem para Campinas e que a mãe deles estava com mau pressentimento. Berta fica assustada, pois acha que Jão Fera está por trás disso, e parte pela floresta para evitar a emboscada. Chegando lá discute com ele que lhe tem muito amor, e consegue evitar o assassinato. Havia sido contratado por Barroso homem de cinquenta anos, uma barba ruiva e áspera, de mediana estatura e excessivamente magro. Este fica furioso ao saber que ele não cumprira o acordo. Jão fica em débito com Barroso e precisa de cinquenta mil réis para saldar a divida. Todos gostavam muito de Berta, pois era alegre e de bom coração. Visitava constantemente Zana, uma mulher com problemas mentais. Brás de 15 anos era feio, e descomposto em seus gestos. Tinha um ar pasmo, um olhar morno, com expressão indiferente e parva, ele também tem problemas mentais, ao sentir ciúme de Berta ele tenta matar Zana, é repreendido por Berta e se arrepende. Brás era filho de uma irmã de Luís Galvão, que morrera viúva, e por isso ele vivia na casa de seu tio. Ele dera a Berta o apelido de Til, pois quando ela lhe ensinava o abc ele achava o til do alfabeto gracioso, então o associou a Berta a quem queria muito bem. Pelo assassinato de Aguiar, do Limoeiro, seu filho oferecera uma recompensa a quem matar o assassino Jão Fera. Avisado do acontecido por Chico, Jão pede que este vá ate o filho de Aguiar do limoeiro e peça cinquenta mil reis em troca Jão Fera ira a seu encontro. Barroso e seu bando planejam provocar um incêndio na casa de Luís Galvão para matá-lo e depois apagando o incêndio Barroso pretende oferecer seus serviços à viúva e conquistá-la. Vingando assim a traição do passado, pois ficaria com a esposa daquele que manchara a honra de sua esposa Besita. Ribeiro trocara seu nome para Barroso, tinha agora uma irrupção no rosto, Jão e Ribeiro tinham-se visto poucas vezes na época de Besita, por isso não se reconheceram quando se encontraram. Na noite são João, Gonçalo, o pajem Faustino e Monjolo trancam a senzala e ateiam fogo no canavial, Luís tenta apagar o fogo e é agredido pelas costas por Gonçalo, Jão o salva, e mata os três bandidos. Barroso foge. Conforme o combinado, Jão se entrega ao filho de Aguiar, diz que ira pra onde ele quiser desde que ninguém toque nele, pois se isso acontecer está desfeito o acordo e ele estará livre novamente. Os capangas tentam amarrá-lo, ele espanca todos e vai embora. Barroso que ficara sabendo dessa prisão, volta para tentar matar Berta, Jão que estava solto novamente consegue pegá-lo e o mata de forma violenta. Quem o visse dilacerando a vítima com as mãos transformadas em garras pensaria que a fera de vulto humano ia devorar a presa e já palpitava com o prazer de trincar as carnes vivas do inimigo. Brás que presenciara tudo e como não gosta dele, leva Berta pra ver a cena. Ela foge horrorizada. Ele tenta explicar o ocorrido, ela bate-lhe no rosto. Percebendo que ela agora lhe tem asco, Jão se entrega a policia. Luís resolve contar tudo a esposa, ela chora e decide que ele deve reconhecer Berta como filha. Contam tudo a Berta, omitindo porem as circunstancia desagradáveis, Berta sente que estão escondendo algo. Jão foge da prisão e procura Berta, ela o faz prometer que nunca mais matara ninguém. Ele fala de Besita sua mãe e ela lhe implora que conte tudo. Ele conta. Besita era a moça mais bonita da cidade, vivia com seu pai Guedes, Luís Galvão e Jão Fera, que eram amigos, apaixonam-se por ela, Jão achando que ela nunca o amaria abre mão desse amor para Luís, este só quer divertir-se não pretende casar-se, ela conhece Ribeiro e aceita casar-se com ele, Jão fica Furioso e se afasta de Luís. Besita casa-se com Ribeiro que desaparece logo depois do casamento, após receber um bilhete chamando-o com urgência a Itu. Alguns meses depois Besita e avisada por Zana que seu marido chegara, era noite, e no escuro ela se entrega as caricias do marido, depois descobre que não era ele e sim Luís Galvão. Jão pensa em matá-lo por isso, mas ela o impede. Meses depois Luís casa-se com D. Ermelinda e nasce Berta filha de Besita. Elas vivem isoladas, moram com ela Zana que amamenta o bebe e Jão Fera, que cuida delas como um cão fiel. Um dia Besita pede a Jão que vá a Itu comprar algumas coisas para o bebe. Durante sua ausência, aparece Ribeiro, que a acusa de traição e a estrangula, Jão chega e consegue salvar Berta, Ribeiro foge. Nhá Tudinha, mãe de Miguel, ouve choro vindo da casa de Besita e vai ate lá, Jão conta o acontecido e ela adota Berta como sua filha. Zana enlouquece e continua morando na casa de Besita e tendo alucinações com a morte dela. Jão torna-se capanga e matador, tentando aplacar a furiosa sede de vingança que tem. Ela o abraça e diz que ele cuidou dela e que e seu pai. Jão passa a trabalhar na terra. Luís quer que Berta vá morar com ele e sua família, ela se nega e pede que leve Miguel que ama Linda. Miguel tenta convencê-la a ir junto, mas ela recusa. Não, Miguel. Lá todos são felizes! Meu lugar é aqui, onde todos sofrem. Eles

14 partem para São Paulo. Berta fica. Como as flores que nascem nos despenhadeiros e algares, onde não penetram os esplendores da natureza, a alma de Berta fora criada para perfumar os abismos da miséria, que se cavam nas almas, subvertidas pela desgraça. 3- Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis -INTRODUÇÃO Maior escritor brasileiro de todos os tempos, Joaquim Maria Machado de Assis ( ) era um mestiço de origem humílima, filho de um mulato e de uma lavadeira portuguesa dos Açores. Moleque de morro, magro, franzino e doentio, o maior escritor brasileiro se fez sozinho, adquirindo a sua vasta e espantosa cultura de forma inteiramente autodidata. Ao estudar a obra de Machado de Assis, a crítica divide-a em duas fases bem distintas cujo marco deliminatório é o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas publicado em Até essa data, a obra machadiana é marcante romântica, e nela sobressai poesia, conto e romances como Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878). Tais obras pertencem, pois, à chamada primeira fase. A partir de 1881, com a publicação das Memórias, Machado de Assis muda de tal forma que Lúcia Miguel Pereira, biógrafa e estudiosa do escritor, chega a afirmar que "tal obra não poderia ter saído de tal homem", pois, "Machado de Assis liberou o demônio interior e começa uma nova aventura": a análise de caracteres, numa verdadeira dissecação da alma humana. É a Segunda fase, fase perpassada dos ingredientes do estilo realista. Além de contos, poesia, teatro e crítica, integram essa fase os romances seguintes, entre os quais está o nosso Dom Casmurro (1900): Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908), seu último livro, pois morre nesse mesmo ano. Toda essa obra está ligada ao estilo realista, embora seja correto reconhecer que um escritor da categoria ao estilo realista, embora seja correto reconhecer que um escritor da categoria de Machado de Assis não pode ficar preso às delimitações de um estilo de época. Memórias Póstumas de Brás Cubas O autor Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em junho de 1839, no Morro do Livramento, Rio de Janeiro, filho de Francisco de Assis, pintor de paredes que descendia de mulatos libertos, e de uma lavadeira açoriana. Perdeu a mãe muito cedo, mas a madrasta, Maria Inês, preta extremamente carinhosa, amparou o menino, auxiliando-o inclusive no processo de alfabetização. Com a morte do pai, e as consequentes dificuldades financeiras, Machado, aos doze anos, vendia na rua os doces que Maria Inês fazia; para aumentar a pequena renda, fazia também serviços de coroinha, e ainda, nos poucos intervalos de tempo, buscava assistir a algumas aulas, lia muitos livros emprestados, e procurava aprender francês com os padeiros franceses do bairro imperial. Quando "descobriu" a livraria Paula Brito, passou a frequentá-la, e foi na revista A Marmota Fluminense, editada pela livraria, que Machado fez sua estreia literária, publicando, em 1855, um poema exageradamente romântico. No ano seguinte é admitido como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Oficial, onde ganha um salário de fome. Dormia e comia mal, e vivia lendo nas horas de trabalho, o que motivou as queixas de seu chefe ao diretor. Esse diretor era Manuel Antônio de Almeida; em vez de puni-lo, tratou de melhorar-lhe a vida. Assim, Machado pode tentar completar sua educação e frequenta as reuniões "lítero-humorísticas" da sociedade Petalógica, que se faziam na Paula Brito. Aí, esse jovem franzino, tímido e gago, mulato de origem obscura e humilde, trava relações com literatos prestigiados: Gonçalves Dias, Joaquim Manuel de Macedo, Casimiro de Abreu e José de Alencar. Em 1860, Machado, que já vinha colaborando com jornais, alcança o alto jornalismo no Diário do Rio de Janeiro, em que se revela um jornalista de formação liberal, afinado com as causas populares, engajado, inclusive, na campanha abolicionista. Ao mesmo tempo, produz contos, comédias, críticos literários. Aos vinte e oito anos, muda-se para o centro da cidade, deixando para trás as lembranças da origem humilde. Nomeado funcionário do Diário Oficial, experimenta, pela primeira vez, a segurança econômica. Já reconhecido por seus méritos, é condecorado com a Ordem da Rosa. Aos trinta anos, encontra a mulher que seria sua grande companheira e colaboradora: Carolina Xavier de Novais, mulher culta e sensível, que o orientava em suas leituras e apresentou-lhe o clássico inglês. Em 1873, a publicação de Ressurreição consagra Machado como romancista. Nesse mesmo ano, é nomeado oficial da Secretaria da Agricultura, iniciando uma carreira burocrática exemplar: ao longo de trinta e cinco anos, foi alcançando todos os níveis de promoção. Com quase quarenta anos, Machado, que desde a infância sofria de crises epilépticas, é obrigado a internar-se em Friburgo para tratamento. Quando superou a crise, Machado reapareceu no vigor de sua capacidade criadora, e produziu as obras-primas da maturidade: os contos e romances da dita fase realista, inaugurada em 1881, com Memórias Póstumas de Brás Cubas. Envelhecendo com serenidade, procura patrocinar jovens talentos literários, cultiva os amigos, aprende alemão, joga gamão e xadrez e frequenta, agora como a figura mais ilustre, as rodas intelectuais. Quando o grupo da Revista Brasileira decide fundar a Academia Brasileira de Letras, Machado é o nome imediatamente lembrado para presidi-la. "Com as barbas brancas disfarçando os lábios grossos e o penteado sonegando os

15 cabelos crespos, o antigo 'Machadinho' tinha então uma aparência olímpica, encarnação simultânea da respeitabilidade vitoriana e da suprema excelência das letras brasileiras.(...) A ascensão social fora completa. (...) A curva da velhice foi para Machado o desdobramento de uma apoteose, onde a única nota dissonante foi uma nota íntima: as saudades invencíveis com que o deixou a morte de Carolina, quatro anos antes da arteriosclerose que o levou, em meio à tristeza profunda do país e da cidade (1), em "Mulato? - dirá seu querido Joaquim Nabuco - só vi nele o grego!" Obra: Machado de Assis cultivou quase todos os gêneros literários Poesia Crítica Literária Narrativas Crisálidas, Falenas, Americanas e Ocidentais Teatro Não Consultes Médico O Protocolo Os Deuses de Casaca O Caminho da Porta Quase Ministro Queda que as Mulheres têm pelos Tolos Crítica Crônica A Semana Fase romântica: Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena, laia Garcia (romances), Contos Fluminenses, Histórias da Meia-Noite (contos). Fase realista: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó, Memorial de Aires (romances), Papéis Avulsos, Várias Histórias, Páginas Recolhidas, Relíquias de Casa Velha (contos). frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas MEMÓRIAS PÓSTUMAS" edo Enr An tes de iniciar a narração de sua autobiogr afia, o narrador, Brás Cubas, dedica-a: "A o verme que primeiro roeu as Consciente de que sua narrativa haveria de provocar um estranhamento no leitor, habituado às narrativas lineares e verossímeis do século XIX, adverte-o: "Ao leitor Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinquenta, nem vinte e, quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião. Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e trancado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

16 Brás Cubas. Capítulo I Óbito do autor Brás Cubas declara que, por ser um defunto autor e não um autor defunto, resolveu começar sua narração pela própria morte, que se dera às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, em sua bela chácara de Catumbi. Tinha 64 anos "rijos e prósperos" e fora acompanhado ao cemitério por 11 amigos. A sua morte haviam assistido poucas pessoas: a irmã Sabina, o cunhado Cotrim, a sobrinha e uma senhora, cuja identidade recusa-se a revelar, informando, apenas, que sofreu mais que os outros presentes. O leitor a conheceria quando o narrador evocasse os tempos moços. Informa, ainda, que morrera tranquila e metodicamente: "A vida estrebuchava-me no peito, com uns ímpetos de vaga marinha, esvaía-se-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se-me planta e pedra, e lodo, e coisa nenhuma. A causa da morte fora uma pneumonia, mas Brás Cubas diz dever-se mais a uma grandiosa ideia que tivera e que vai apresentar em seguida. Capítulo II - O emplasto Brás Cubas revela, que, um dia, uma idéia pendurou-se no trapézio que ele tinha no cérebro e provocou-o: "Deciframe ou devoro-te". Essa ideia era a criação de um emplasto anti-hipocondríaco, "destinado a aliviar nossa melancólica humanidade". Para o governo, afirmara que esse resultado era verdadeiramente cristão; aos amigos, falara das vantagens pecuniárias que o emplasto traria, mas, já que havia morrido, podia confessar a verdade: o que o movera fora a vaidade, queria alcançar fama e glória. "Assim, a minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: amor da Glória." Aspectos Modernos Enredo rarefeito; Quebra da linearidade; Narrativa Fantástica; Metalinguagem; Leitor incluso; (é personagem na obra Machadiana) Estrutura de obra aberta; (várias leituras e interpretações) Valorização do espaço branco do papel. Capítulo III Genealogia Evocando seu passado remoto, Brás Cubas fala das origens de sua família. O fundador havia sido um certo Damião Cubas, nascido no Rio de Janeiro na primeira metade do século XVIII, tanoeiro de profissão, que, ao tornar-se lavrador, enriquecera; ao morrer, deixara grande herança ao filho, Luís Cubas. A família só se referia aos antepassados até esse avô, que estudara em Coimbra e tivera prestígio social, omitindo Damião que, afinal, havia sido simples tanoeiro. O pai de Brás Cubas, de início, para esconder sua origem, inventara que a família provinha da mesma de que nascera o capitão-mor fundador da Vila de São Vicente, e para reforçar a falsificação dera ao filho o nome de Brás. A família do capitão-mor Brás Cubas se opusera a essa inverdade, por isso o pai do narrador forjou outra mentira: a família descendia de um cavaleiro premiado com o sobrenome Cubas por ter, heroicamente, subtraído trezentas cubas aos mouros, durante as batalhas da África. Observa Brás Cubas que seu pai, homem digno e de bom caráter, tinha esses fumos de vaidade. Capítulo IV - A ideia fixa

17 Brás Cubas confessa que a ideia do emplasto tornara-se uma obsessão. Não lhe ocorre nada que seja tão fixo; talvez a lua ou as pirâmides. Sugere, então, ao leitor que escolha a comparação que mais o agrade e não torça o nariz, embora reconheça que o leitor deve estar impaciente porque a narrativa propriamente dita ainda não teve início, mas afirma que chegará a ela, justificando: "Creio que prefere a anedota à reflexão, como os outros leitores, seus confrades, e acho que faz muito bem. Pois lá iremos. Todavia, importa dizer que este livro é escrito com pachorra, com a pachorra de um homem já desafrontado da brevidade do século, obra supinamente filosófica, de uma filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona, coisa que não edifica nem destrói, não inflama nem regela, e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado. Capítulo V - Em que aparece a orelha de uma senhora Durante os preparativos para a criação do emplasto, Brás Cubas recebeu um golpe de ar; adoeceu e não se tratou, pois só pensava na glória que o emplasto lhe traria. Como piorasse, resolveu tratar-se, mas sem cuidado nem persistência, sobrevindo a pneumonia que o matou. Diz-nos que, no leito de morte, enquanto refletia sobre o fato de uma simples corrente de ar pôr a perder qualquer projeto humano, despediu-se da mulher a quem se referira no primeiro capítulo, a qual, embora entrada em anos, havia sido a mais bela entre suas contemporâneas; faz, então, uma surpreendente revelação: "Tinha então 54 anos, era uma ruína, uma imponente ruína. Imagine o leitor que nos amamos, ela e eu, muitos anos antes, e que um dia, já enfermo, vejo-a assomar à porta da alcova..." Capítulo VI - Chimène, qui l'eüt dit? Rodrigue, qui 1'eút cru? À porta da alcova, a mulher hesitou, pois havia um homem no quarto; Brás Cubas não a via há dois anos, e contemplava-a mudo, olhando-a não como era, mas como ela (e ele) haviam sido. A mulher entrou e ficou em pé, ao lado do leito. O homem retirou-se. Brás Cubas e Virgília chamava-se Virgília continuavam a olhar-se calados: "Quem diria? De dois grandes namorados, de duas paixões sem freios, nada mais havia ali, vinte anos depois; havia apenas dois corações murchos, devastados pela vida e saciados dela, não sei se em igual dose, mas enfim saciados. Quebrando o silêncio, Brás Cubas perguntou-lhe se andava a visitar defuntos. Virgília, com um muxoxo, respondeu "Ora, defuntos!" Sentou-se; com voz amiga e doce, comentou com Brás Cubas alguns acontecimentos, com graça e um pouco de maldade, o que deu prazer ao enfermo: "(...) eu, prestes a deixar o mundo, sentia um prazer satânico em mofar dele, em persuadir-me que não deixava nada." Às três horas, retirou-se, dizendo que voltaria no dia seguinte ou no outro. Diante da observação de Brás Cubas de que talvez não conviesse ele era solteirão e na casa não havia senhoras - Virgília disse não se importar estava velha! mas voltaria com o filho. Quando voltou com Nhonhô, o filho bacharel, Brás Cubas ficou constrangido: o menino, aos cinco anos, havia sido cúmplice inconsciente do amor clandestino de Brás e Virgília. Virgília adivinhou a causa do constrangimento que mantinha Brás Cubas calado, e dissimulou, dizendo ao filho que Brás Cubas não falava para fazer crer que estava à morte. Todos sorriram. Virgília tinha o aspecto "das vidas imaculadas": "(...) nenhum gesto que pudesse denunciar nada; uma igualdade de palavra e de espírito, uma dominação sobre si mesma, que pareciam e talvez fossem raras." Casualmente falaram de amores ilegítimos e Virgília referiu-se à mulher de que se tratava aliás, sua amiga com desdém e indignação. Capítulo VII - O delírio Brás Cubas conta que, antes de morrer, delirou por vinte ou trinta minutos. Em seu delírio, viu-se transformado em um barbeiro chinês; escanhoava um mandarim que lhe pagava com beliscões e confeitos. Depois se viu transformado na Summa Theológica de S. Tomás de Aquino. De volta à forma humana, viu-se arrebatado por um hipopótamo que informou irem à origem dos séculos. Brás Cubas ia de olhos fechados e sentia aumentar a sensação de frio. Ao abrir os olhos viu que galopavam numa planície de neve, onde vegetação e animais também eram de neve. De repente, apareceu uma figura imensa de mulher, cujos contornos perdiam-se no ambiente, e que se apresentou: Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga. (...)







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